O farsante
Meu avô era nativo, nativo também
eu sou, mas na terra que meu pai me criou tudo mudou até parece que vivo no
exterior. Inverteram-se os valores e aqui,
hoje, quem dita as regras são aqueles que na terra nada semearam, e muito menos
o pé de aroeira preservaram.
Sutilmente no Abraão, o aprendiz
de raposa desembarcou, vestido de cordeirinho o povo conquistou, o pobre nativo
ele logo abraçou. Como sempre, o batizaram de doutor, com um vasto vocabulário e
canudo de papel muita gente o astuto engambelou. Rapidinho um terreninho no
Abraão negociou pra construir, várias árvores o roedor arrancou, para se livrar,
sem piedade, fogo ateou e cinzas foi o que restou. Areia da praia muitos metros o
inocente comprou, a calçadinha da sua casa com pedras da cachoeira “o amigo”
do nativo decorou, a paz do aventureiro
era um sonho de menino que o cidadão realizou.
Mas o tempo passou e muito por aqui o enganador conquistou,
pensando no futuro em ambientalista o carioca se transformou. Já esquecera o
quanto devastou, e na cidade grande uma tal ONG fundou, a natureza agora é seu
grande amor. Uma jaqueirinha em seu quintal plantou, o caramujo africano
alimentou, até a morte da anaconda o farsante
chorou, sem falar no sagüi que o malandro adotou. É mesmo uma figuraça esse
sujeito que um dia o Abraão abraçou.
Só não enganou o velho sábio que todos esses
acontecimentos um dia profetizou, e disse mais: esse olhar não me engana, muito menos essa pastinha de bacana onde guarda toda a trama arquitetada,
não precisa ser doutor para ser um bom observador, por isso é que esse moço em
minhas mãos ele nunca tocou. Só foi enganado quem em uma máscara um dia
acreditou.