Velho companheiro
Meu velho companheiro onde você está? Ah, meu amigão, a vida
é engraçada e o homem é muito ingrato. Eu estou pelo mundo jogado, amarrado
sofrendo num desses cais qualquer, apodrecendo com o meu corpo totalmente
envelhecido, coração enfraquecido. Assim eu me sinto de dia levo chicotadas das
ondas, de noite sou devorado pelos vermes do mar. Estou cheio de limos pesados
sem poder navegar, fico na esperança de que um dia alguém venha me salvar,
mesmo que meu corpo fique exposto em algum lugar feito peça de museu para o
povo me visitar, e aqueles que comigo viveram aventuras matem suas saudades, e
para que o povo, de minha trajetória, possa falar.
Mas você meu fiel parceiro sumiu, não vem mais me visitar. E
nossa velha amizade onde foi parar? Será que a distância conseguiu apagar? Ah,
meu velho, antes fosse assim, mas o destino só escreve as linhas, e a vida se
encarrega de cobrar e tudo acontece tão de repente, sem agente esperar, que não
da nem tempo de se despedir.
E hoje estou tão longe de você que não dá nem para te ajudar,
mas a história que juntos escrevemos não há tempo que consiga apagar, está
gravado nas ondas do mar, está nos corações que pulsam no Abraão. Os grandes
amores não morrem.
Tenente Loretti, décadas fazendo parte da História da Ilha
Grande, está prestes a afundar na beira de um cais em Angra dos Reis, em algum
lugar bem longe daqui seu parceiro Constantino chora o triste fim daquele que
foi seu grande amor.
O barco Tenente Loretti.
